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Ai de Mim

08
Mar18

Falta de percebas

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Hoje escrevo sobre um assunto do qual nem sei se rie ou se chore.

Ahm?!

Pois, lá está.

 

Quando estiverem à conversa com alguém (seja uma só pessoa ou com um grupo de amigos) por favor façam as contas ao número de vezes em que, durante a conversa, um dos presentes diz e/ou pergunta algo semelhante a: Ahm?; O quê?; Não percebi!; Não percebo nada do que estás a dizer.; Podes repetir?; ou na versão mais formal: Desculpe, pode repetir?.

[como é óbvio, a vossa falta de percebas também entra na contagem, mesmo que apenas em pensamento. E não vale fazer batota.]

 

Tenho vindo a reparar que, de uma forma geral, todas as tarefas em que seja necessária atenção auditiva são grandes desafios. Pior do que isso, só mesmo a passagem do Cabo das Tormentas.

 

Voltemos atrás no tempo.

Lembram-se da escola primária e do ciclo e do secundário quando os professores ditavam um texto, uma correção a uma das questões dos TPC e coisas desse género? Nossa, que pesadelo! Havia quem acompanhasse bem o ditado, mas já estava o professor a ditar a 2.ª frase e alguns coleguinhas ainda não tinham sequer colocado o primeiro ponto final. E começava então o filme:

[Aluno 1] - Professora, pode repetir?

[Professora] - Em que parte vais?

[Aluno 1] - "A 25 de abril..."

[Professora] - "A 25 de abril de 1974..."

[Aluno 2] - 64?

[Professora] - "Não. 74!"

[Aluno 3] - O quê? 94? Mas isso é o ano em que estamos."

[Professora] - Calma. Ouçam-me com atenção: "A 25 de abril de 1974, sete-quatro..."

[Aluno 3] - Sim! Já está!

[Professora] - "... deu-se em Portugal..."

[Aluno 3 acena com a cabeça em sinal de estar a acompanhar]

[Professora] - Posso avançar?

[Todos] - Sim!

[Professora] - Então, "...deu-se em Portugal a revolução dos cravos, ponto final."

[Aluno 2] - A religião?

[Aluno 4] - Dos gatos?

[Aluno 1] - Professora, ainda não percebi se é 64 ou 84.

 

Riam-se!

Isto era o pão nosso de cada dia. Para um ditado de 5 linhas não era suficiente uma aula de 90 minutos (pronto, estou a exagerar um bocadinho).

Mas voltando ao que me trouxe a partilhar este texto: O que é que se passa connosco? Estamos cada vez a ouvir pior? Estamos desatentos? Estamos a expressar-nos de forma tão primitiva que ninguém nos entende à primeira? Talvez seja por tudo isto ou talvez por nada, mas sei lá... fico irritada quando perco o fio à meada por haver tantas interrupções num diálogo por causa da falta de percebas.

Parece-me que estamos a ficar formatados para não saber ouvir. Apenas falamos e falamos e temos monólogos e os outros querem lá saber e nós queremos também lá saber e continuamos a falar e a dizer tontices.

(sabendo que existem casos especiais) A capacidade de ouvir é-nos oferecida de mão beijada, é das coisas que sabemos fazer desde que somos pequenos e tudo isto, toda esta falta de percebas, leva-me a sentir que não sabemos ouvir, não sabemos dar atenção ao que outra pessoa está a tentar explicar. Temos a capacidade auditiva, mas não sabemos usá-la e, pior do que isso, desperdiçamo-la.

 

Pode ser que aos poucos percebamos que o silêncio também é sinal de sabedoria.

Calados, a escutar, conseguimos dizer muita coisa.

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