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Ai de Mim

23
Ago18

Protegida do Destino

No que ao essencial da vida diz respeito sempre me soube uma sortuda. Nunca vivi com mordomias, mas também nunca me faltou nada.

Desde o ensino primário até à pós-graduação frequentei escolas públicas. No secundário andei num colégio, mas só porque não era pago, graças àquelas parcerias entre o ensino privado e o Estado. Andei em escolas onde se dizia haver drogas e assaltos frequentes, mas a sorte sempre esteve do meu lado e em momento algum dei de caras com uma dessas situações.

 

A existência de outras realidades é algo a que sou sensível desde pequena, mas só quando comecei a ir dar os meus passeios ao Porto, sozinha e com o meu tempo e a minha vontade para ir descobrindo a cidade, é que essas realidades se tornaram reais aos meus olhos.

Comecei a ver pessoas fazerem das ruas a sua casa, com uma cama de papelão; vi pessoas a mendigas acompanhadas de um pacote de vinho. Quando ia para a faculdade e fazia a mudança de autocarro no centro do Porto, passava sempre á porta de uma pensão com mau aspeto onde à entrada, entre a porta do estabelecimento e o passeio da rua, logo estava uma prostituta, provavelmente a tentar cativar clientes.

 

É irónico como tantas vezes encontramos as pessoas mais pobres junto das pessoas mais ricas.

Hoje em dia é raro ir ao Porto, e muitos dos estilos de vida com que em tempos me ia cruzando voltaram a ser algo que me parece longínquo.

No entanto, esta semana estive ao lado de um dos bairros mais (negativamente) conhecidos da cidade.

Apercebo-me que a pobreza cada vez é mais extrema. E não me refiro apenas à falta de dinheiro no banco ou debaixo do colchão, refiro-me à pobreza de espírito. Não existem doses de "bom espírito" por aí à venda, mas ainda me custa ver como há pessoas que conseguem chegar a um vazio tão grande. São pessoas dependentes de uma vida de rua, escondem-se em terrenos abandonados nem sei bem para fazer o quê. São pessoas que pedem nas ruas e que não sabem em que mais gastar o dinheiro que receberam por ainda haver seres com bom coração, que acreditam estar a ajudar.

Questiono-me se essas pessoas alguma vez, depois de afundarem, tiveram a oportunidade de vir à superfície ganhar fôlego. A verdade é que nem sequer podemos considerar essas pessoas os "fantasmas" da cidade porque basta estar atento por uns instantes e logo nos apercebemos das expressões de quem por elas passam, já para não falar que há uma tendência para dar uma certa distância de segurança, "não vá o diabo tecê-las".

 

No que ao essencial da vida diz respeito sempre me soube uma sortuda.

E sabendo que a vida ainda tem alguns dissabores à minha espera - se não tivesse, não seria real -, espero apenas continuar a conhecer-me como sendo uma protegida do destino.

 

Silhuetas

(imagem encontrada aqui

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